quarta-feira, 29 de abril de 2026

Dois anos da grande inundação de 2024 no Rio Grande do Sul: memória, evidências e desafios permanentes

Centro de São Leopoldo/RS inundado pelo Rio dos Sinos, maio de 2024. Redação Brasil de Fato (2024, texto digital).
 



*Por Julio Dorneles

Abril e maio de 2026 marcam dois anos da maior inundação já registrada na história do Rio Grande do Sul. Passado o choque inicial, o luto coletivo e a mobilização emergencial que se seguiu ao evento extremo de 2024, impõe-se a necessidade de uma reflexão mais profunda, que vá além da memória da tragédia e se concentre na compreensão de suas causas estruturais, de suas evidências acumuladas e, sobretudo, dos desafios que permanecem colocados para o território gaúcho.

A grande inundação de 2024 não pode ser compreendida como um evento isolado. Ela foi o ápice de uma sequência de desastres hidrológicos ocorridos entre junho de 2023 e junho de 2024, período marcado por ciclones extratropicais, tempestades severas, enxurradas e cheias de grande magnitude em praticamente todas as regiões hidrográficas do Estado. O que se observou foi uma intensificação dos extremos do regime hidrológico, com alternância rápida entre períodos de escassez e de excesso de água, revelando um cenário persistente de insegurança hídrica.

As evidências acumuladas nos últimos anos indicam que a variabilidade climática sempre presente no RS passou a se manifestar de forma mais intensa, frequente e destrutiva. Estudos técnicos e dados observacionais demonstraram que os volumes de precipitação registrados em 2023 e 2024 superaram estimativas históricas de recorrência, inclusive aquelas consideradas raras do ponto de vista estatístico. As bacias dos rios Taquari-Antas, Caí, Sinos, Jacuí e Gravataí cumpriram, de maneira simultânea, o papel de condutores de volumes excepcionais de água em direção ao Delta do Jacuí e ao Lago Guaíba, pressionando um sistema de drenagem e contenção que já apresentava fragilidades conhecidas.

Do ponto de vista territorial, a inundação de 2024 evidenciou a vulnerabilidade de áreas densamente urbanizadas, inclusive da Região Metropolitana de Porto Alegre, supostamente protegida por sistemas de controle de cheias concebidos a partir da enchente histórica de 1941. A superação das cotas dos diques, falhas em casas de bombas, rupturas pontuais e a ausência de manutenção adequada revelaram não apenas limites de engenharia, mas déficits de governança. A cidade de Porto Alegre, assim como São Leopoldo, Canoas, Novo Hamburgo e diversos municípios dos Vales e da Serra, tornaram-se símbolos de um modelo de ocupação territorial que historicamente negligenciou a dinâmica natural das bacias hidrográficas.

Dois anos depois, a principal lição que se impõe é que os desastres de 2024 tiveram natureza socionatural. As chuvas extremas foram determinantes, mas seus impactos foram amplificados por décadas de intervenções antrópicas nos cursos d’água, pela supressão de áreas naturais de amortecimento das cheias, pela urbanização de planícies de inundação e, sobretudo, pela incompletude do sistema de governança dos recursos hídricos no Estado. Passadas mais de três décadas da promulgação da Constituição Estadual e da Lei das Águas do RS, instrumentos centrais como as agências de bacia e a cobrança pelo uso da água permanecem ausentes ou fragilmente implementados.

A resposta institucional que se seguiu à tragédia de 2024 foi relevante e necessária. A mobilização da Defesa Civil, a ação coordenada entre União, Estado e Municípios, a criação de estruturas extraordinárias voltadas à reconstrução e o engajamento da sociedade civil demonstraram uma notável capacidade de reação. Contudo, dois anos depois, torna-se evidente que a reconstrução física, embora indispensável, é insuficiente se não vier acompanhada de mudanças estruturais na forma como se planeja, governa e maneja a água no território gaúcho.

A agenda que se coloca para o RS é, acima de tudo, uma agenda de adaptação. Isso implica reconhecer a água como elemento central da sustentabilidade socioambiental e assumir a bacia hidrográfica como unidade efetiva de planejamento. Exige também fortalecer os comitês de bacia, integrar políticas setoriais, investir em ciência, monitoramento e sistemas de alerta, além de combinar soluções de engenharia com soluções baseadas na natureza, como a recuperação de matas ciliares, áreas úmidas e zonas de recarga.

Dois anos após a grande inundação, a memória do evento não deve servir apenas como lembrança de um desastre, mas como referência permanente para a construção de um novo pacto com a água. O futuro do Rio Grande do Sul dependerá da capacidade de aprender com as evidências deixadas pelas águas de 2024 e de transformar a tragédia em ponto de inflexão rumo a uma governança hídrica mais integrada, preventiva e resiliente.

* Doutor em Ciências: Ambiente e Desenvolvimento (Univates). Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental. @juliodornelesoficial


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