quinta-feira, 2 de julho de 2026

As dimensões do desastre no RS


Imagem: Inundação na Bacia do Guaíba/RS (Imagem de satélite/NASA)

 

Por Julio Dorneles *

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem, quarta-feira, 1º de julho, uma pesquisa que ajuda a dimensionar, com mais precisão, os impactos complexos da grande inundação de maio de 2024 no Rio Grande do Sul (RS, Brasil). Nesse contexto, temos buscado contribuir não apenas para compreender o ocorrido em sua amplitude socioambiental, mas também para identificar e aplicar aprendizados que fortaleçam uma governança mais adaptável e resiliente diante das mudanças climáticas e de seus efeitos cada vez mais evidentes nas últimas décadas, especialmente em nosso Estado.

O levantamento estimou que 6.333.727 moradores foram afetados na área pesquisada. Após o desastre climático, verificou-se que 14,6% das pessoas mudaram de endereço, sendo que 37,9% dessas mudanças foram motivadas diretamente pelo evento climático. A pesquisa abrangeu 133 municípios. Nas áreas mais impactadas pelas enchentes, o número de domicílios foi estimado em 2.328.093. Entre esses domicílios, 88,0% registraram algum tipo de ocorrência relacionada ao desastre climático. As mais frequentes foram a interrupção do fornecimento de água e a interrupção do fornecimento de energia elétrica, ambas atingindo 66,3% dos lares. Além disso, 55,5% dos moradores avaliaram que suas residências sofreram algum dano estrutural após as enchentes. Em relação aos efeitos em sua vida pessoal a saúde mental abalada (67,5%) ganhou destaque, seguida por interrupções na vida social ou no convívio com família ou amigos (58,4%) e dificuldade no deslocamento para trabalho, escola ou creche (57,3%).

Esses dados revelam dimensões importantes dos impactos da grande inundação e deixam claro que as políticas públicas ainda têm um longo percurso até conseguirem enfrentar adequadamente eventos extremos dessa natureza. Esse processo, inclusive, deve anteceder a mobilização cívica voluntária e a ação governamental necessárias em situações complexas como essa.

Desde o começo da pesquisa de nosso doutorado no PPGAD/Univates estamos abordando a governança integrada de bacias hidrográficas e o sistema de gestão de recursos hídricos do RS sob as abordagens da teoria geral dos sistemas e da concepção do Bem Viver dos povos originários. E, mesmo antes dos eventos extremos de 2023/24, identificávamos a necessidade de compreender as causas e buscar um caminho diferente da superexploração da natureza. Isso, no exato sentido de que não somos como sociedade separados da natureza, mas somos parte indissociável dela. Nesse sentido, em 2025, publicamos dois artigos: “As lições das águas: desastres hidrológicos no Rio Grande do Sul (RS/Brasil) no contexto da inundação de maio de 2024” pela Prâksis (Feevale); e, “Insegurança hídrica na Bacia do Sinos, RS/Brasil: evidências dos riscos na atual governança da água”, pela Redes (Unisc).

Os links para os artigos:

https://periodicos.feevale.br/seer/index.php/revistapraksis/article/view/4243

https://seer.unisc.br/index.php/redes/article/view/19347

O link para a pesquisa do IBGE:

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/47396-divulgacao-peers

* Julio Dorneles é Doutor em Ciências: Ambiente e Desenvolvimento pelo PPGAD/UNIVATES.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Dois anos da grande inundação de 2024 no Rio Grande do Sul: memória, evidências e desafios permanentes

Centro de São Leopoldo/RS inundado pelo Rio dos Sinos, maio de 2024. Redação Brasil de Fato (2024, texto digital).
 



*Por Julio Dorneles

Abril e maio de 2026 marcam dois anos da maior inundação já registrada na história do Rio Grande do Sul. Passado o choque inicial, o luto coletivo e a mobilização emergencial que se seguiu ao evento extremo de 2024, impõe-se a necessidade de uma reflexão mais profunda, que vá além da memória da tragédia e se concentre na compreensão de suas causas estruturais, de suas evidências acumuladas e, sobretudo, dos desafios que permanecem colocados para o território gaúcho.

A grande inundação de 2024 não pode ser compreendida como um evento isolado. Ela foi o ápice de uma sequência de desastres hidrológicos ocorridos entre junho de 2023 e junho de 2024, período marcado por ciclones extratropicais, tempestades severas, enxurradas e cheias de grande magnitude em praticamente todas as regiões hidrográficas do Estado. O que se observou foi uma intensificação dos extremos do regime hidrológico, com alternância rápida entre períodos de escassez e de excesso de água, revelando um cenário persistente de insegurança hídrica.

As evidências acumuladas nos últimos anos indicam que a variabilidade climática sempre presente no RS passou a se manifestar de forma mais intensa, frequente e destrutiva. Estudos técnicos e dados observacionais demonstraram que os volumes de precipitação registrados em 2023 e 2024 superaram estimativas históricas de recorrência, inclusive aquelas consideradas raras do ponto de vista estatístico. As bacias dos rios Taquari-Antas, Caí, Sinos, Jacuí e Gravataí cumpriram, de maneira simultânea, o papel de condutores de volumes excepcionais de água em direção ao Delta do Jacuí e ao Lago Guaíba, pressionando um sistema de drenagem e contenção que já apresentava fragilidades conhecidas.

Do ponto de vista territorial, a inundação de 2024 evidenciou a vulnerabilidade de áreas densamente urbanizadas, inclusive da Região Metropolitana de Porto Alegre, supostamente protegida por sistemas de controle de cheias concebidos a partir da enchente histórica de 1941. A superação das cotas dos diques, falhas em casas de bombas, rupturas pontuais e a ausência de manutenção adequada revelaram não apenas limites de engenharia, mas déficits de governança. A cidade de Porto Alegre, assim como São Leopoldo, Canoas, Novo Hamburgo e diversos municípios dos Vales e da Serra, tornaram-se símbolos de um modelo de ocupação territorial que historicamente negligenciou a dinâmica natural das bacias hidrográficas.

Dois anos depois, a principal lição que se impõe é que os desastres de 2024 tiveram natureza socionatural. As chuvas extremas foram determinantes, mas seus impactos foram amplificados por décadas de intervenções antrópicas nos cursos d’água, pela supressão de áreas naturais de amortecimento das cheias, pela urbanização de planícies de inundação e, sobretudo, pela incompletude do sistema de governança dos recursos hídricos no Estado. Passadas mais de três décadas da promulgação da Constituição Estadual e da Lei das Águas do RS, instrumentos centrais como as agências de bacia e a cobrança pelo uso da água permanecem ausentes ou fragilmente implementados.

A resposta institucional que se seguiu à tragédia de 2024 foi relevante e necessária. A mobilização da Defesa Civil, a ação coordenada entre União, Estado e Municípios, a criação de estruturas extraordinárias voltadas à reconstrução e o engajamento da sociedade civil demonstraram uma notável capacidade de reação. Contudo, dois anos depois, torna-se evidente que a reconstrução física, embora indispensável, é insuficiente se não vier acompanhada de mudanças estruturais na forma como se planeja, governa e maneja a água no território gaúcho.

A agenda que se coloca para o RS é, acima de tudo, uma agenda de adaptação. Isso implica reconhecer a água como elemento central da sustentabilidade socioambiental e assumir a bacia hidrográfica como unidade efetiva de planejamento. Exige também fortalecer os comitês de bacia, integrar políticas setoriais, investir em ciência, monitoramento e sistemas de alerta, além de combinar soluções de engenharia com soluções baseadas na natureza, como a recuperação de matas ciliares, áreas úmidas e zonas de recarga.

Dois anos após a grande inundação, a memória do evento não deve servir apenas como lembrança de um desastre, mas como referência permanente para a construção de um novo pacto com a água. O futuro do Rio Grande do Sul dependerá da capacidade de aprender com as evidências deixadas pelas águas de 2024 e de transformar a tragédia em ponto de inflexão rumo a uma governança hídrica mais integrada, preventiva e resiliente.

* Doutor em Ciências: Ambiente e Desenvolvimento (Univates). Analista de Políticas Públicas e Gestão Governamental. @juliodornelesoficial


As dimensões do desastre no RS

Imagem: Inundação na Bacia do Guaíba/RS (Imagem de satélite/NASA)   Por Julio Dorneles * O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística...