Por Julio Dorneles *
O Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) divulgou ontem, quarta-feira, 1º de julho, uma pesquisa
que ajuda a dimensionar, com mais precisão, os impactos complexos da grande
inundação de maio de 2024 no Rio Grande do Sul (RS, Brasil). Nesse contexto, temos
buscado contribuir não apenas para compreender o ocorrido em sua amplitude
socioambiental, mas também para identificar e aplicar aprendizados que
fortaleçam uma governança mais adaptável e resiliente diante das mudanças
climáticas e de seus efeitos cada vez mais evidentes nas últimas décadas,
especialmente em nosso Estado.
O levantamento estimou que 6.333.727
moradores foram afetados na área pesquisada. Após o desastre climático,
verificou-se que 14,6% das pessoas mudaram de endereço, sendo que 37,9% dessas
mudanças foram motivadas diretamente pelo evento climático. A pesquisa abrangeu
133 municípios. Nas áreas mais impactadas pelas enchentes, o número de
domicílios foi estimado em 2.328.093. Entre esses domicílios, 88,0% registraram
algum tipo de ocorrência relacionada ao desastre climático. As mais frequentes
foram a interrupção do fornecimento de água e a interrupção do fornecimento de
energia elétrica, ambas atingindo 66,3% dos lares. Além disso, 55,5% dos
moradores avaliaram que suas residências sofreram algum dano estrutural após as
enchentes. Em relação aos efeitos em sua vida pessoal a saúde mental abalada
(67,5%) ganhou destaque, seguida por interrupções na vida social ou no convívio
com família ou amigos (58,4%) e dificuldade no deslocamento para trabalho,
escola ou creche (57,3%).
Esses dados revelam dimensões
importantes dos impactos da grande inundação e deixam claro que as políticas
públicas ainda têm um longo percurso até conseguirem enfrentar adequadamente
eventos extremos dessa natureza. Esse processo, inclusive, deve anteceder a
mobilização cívica voluntária e a ação governamental necessárias em situações
complexas como essa.
Desde o começo da pesquisa de
nosso doutorado no PPGAD/Univates estamos abordando a governança integrada de
bacias hidrográficas e o sistema de gestão de recursos hídricos do RS sob as
abordagens da teoria geral dos sistemas e da concepção do Bem Viver dos povos
originários. E, mesmo antes dos eventos extremos de 2023/24, identificávamos a
necessidade de compreender as causas e buscar um caminho diferente da
superexploração da natureza. Isso, no exato sentido de que não somos como
sociedade separados da natureza, mas somos parte indissociável dela. Nesse
sentido, em 2025, publicamos dois artigos: “As lições das águas: desastres
hidrológicos no Rio Grande do Sul (RS/Brasil) no contexto da inundação de maio
de 2024” pela Prâksis (Feevale); e, “Insegurança hídrica na Bacia do Sinos,
RS/Brasil: evidências dos riscos na atual governança da água”, pela Redes (Unisc).
Os links para os artigos:
https://periodicos.feevale.br/seer/index.php/revistapraksis/article/view/4243
https://seer.unisc.br/index.php/redes/article/view/19347
O link para a pesquisa do IBGE:
* Julio Dorneles é Doutor em
Ciências: Ambiente e Desenvolvimento pelo PPGAD/UNIVATES.