sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Outubro






“É aos escravos, e não aos homens livres, que se dá um prêmio para os recompensar por terem se comportado bem.” Baruch Spinoza (filósofo do século 17)



Vêm aí pela frente as eleições de outubro. Geralmente esse período a cada ano já provoca mais reflexão em todos. Sendo ano eleitoral, ainda mais necessária é a reflexão.  No calendário anual já nos encaminhamos para uma espécie de reta final de uma corrida de obstáculos e de grandes testes de resistência.  Olhamos um pouco para um calendário que já se foi, mês a mês, folha a folha, e resta pouco para chegarmos ao final de um ciclo. Logo começará outro.

No trabalho pensamos nas metas, talvez no período de férias que virá lá adiante. Na escola ou na faculdade vêm exames, avaliações e mais exigências até que se finalize o semestre, o ano, com os objetivos alcançados ou não.  Se tivermos um tempo ainda caberá uma avaliação e quem sabe um novo planejamento para reequilibrar a vida.

Sinceramente faço votos que todos possam ter esse tempo e essa lucidez. Que saibamos respirar, pensar, refletir, reavaliar e, se necessário, recomeçar.  Pode ser um novo caminho, um novo rumo, uma esperança renovada. Pode ser um outubro diferente dos anos passados. O importante é saber vive-lo.

Se for depositar seu voto com confiança e esperança, que sejam estas fundadas numa reflexão muito séria. Que teus candidatos mereçam teu voto. Se teu candidato a prefeito ou a vereador é um professor ou um advogado ou tenha qualquer outra atividade, que seja uma pessoa digna, coerente, comprometida. Observe se o patrimônio efetivo dessa pessoa, se  é compatível com o declarado, se ele ou ela tem uma história de compromisso com a tua vida e com  tuas necessidades, enfim, se te representam. Afinal, é da natureza de homens e mulheres livres “se comportarem bem”. O que significa isso? Que são cidadãos exemplares, imperfeitos, mas únicos e dignos do teu voto.

Por Julio Dorneles

Professor, especialista em administração pública. É teólogo e licenciado em história.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Encontro com catadoras e catadores do Vale dos Sinos

Fórum dos Recicladores do Vale dos Sinos Neste sábado passado (28/05) participei do encontro mensal dos catadores e das catadoras, cooperativas e associações da região do Vale do Rio dos Sinos. O encontro ocorreu na antiga sede da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos). No encontro falei sobre o atual cenário do Saneamento ambiental, resíduos sólidos e, em especial, sobre a questão da água (qualidade, déficit hídrico e desafios) para nossa região no RS/Brasil. Créditos: Fórum dos Recicladores e Daiana Schwengber

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Futebol

Por Julio Dorneles* (artigo de opinião publicado no Jornal de Gramado, em 10.12.2015, p. 9) Eu era um adolescente. Não tinha lá muito talento para o futebol. Quando mais criança havia abandonado o posto de goleiro de Handebol após desmaio resultante de uma violenta bolada que atingiu minha cabeça. Defendi. O gol do adversário não saiu, mas eu achei que não era uma boa posição para mim na equipe. Depois disso, eventualmente, fui para o Futebol. Mas muito raramente estive na equipe titular ou envolvido em grandes disputas. Para minha surpresa, na antiga 7ª série do Ensino Fundamental, o professor me convocou para um torneio que se realizaria em uma cidade próxima. Lá fomos eu e meus parceiros. Rolando o torneio fomos indo razoavelmente para as partidas decisivas. Enfrentamos a partida que nos colocaria na final, jogamos bem, mas perdemos nos pênaltis a classificação para a disputa do título. Tivemos que nos contentar com a disputa pelo terceiro lugar. A partida foi novamente terrível. Perdemos no detalhe, 2x1. Passou um tempo, acho que uns dois ou três meses, e veio o professor com as medalhas. As medalhas não eram de quarto colocado, mas de terceiro. “O que houve professor?” Haviam descoberto uns “gatos” no nosso adversário. Verdade que eu não era de grande porte, mas aqueles caras que nos marcavam eram muito maiores que nós. Algo estava mesmo errado. Hoje há uma onda de transformar tudo na vida em uma partida de futebol. Um jogo de quem perde e quem ganha. E não pode evidentemente ser assim. É inaceitável. Na política, na administração pública e privada, no hospital, na vida das pessoas, não se trata de uma partida de futebol ou um campeonato. Uma partida pode ocorrer sem prejudicar ninguém se seguir as regras, e poderá ser reeditada, por exemplo, em inúmeros grenais. Esse jogo do impeachment já estava fora da pauta, e voltou. Com base nenhuma, sem respeito à Constituição e às regras mínimas destinadas a assegurar avanços e corrigir erros. A mesma lógica dos que o defendem, se aplicada a todos que “pedalaram”, levaria ao afastamento de 99% dos governadores, prefeitos e até mesmo de gestores de empresas privadas, os quais, em tempos de crise, tem nas pedaladas uma alternativa de sobrevivência. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor. juliodorneles@hotmail.com

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

REGULAÇÃO DO SANEAMENTO PELO PRÓ-SINOS

PARTICIPE! É NA FEEVALE, nesta quinta. 1ª Conferência de Regulação do Consórcio Pró-Sinos O Consórcio Público de Saneamento Básico da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos – Pró-Sinos, realiza nesta quinta (17), às 18h, a 1ª Conferência de Regulação do Consórcio ProSinos para constituição do CTC – ProSinos (Conselho Técnico Consultivo); órgão regulador do saneamento dos 26 municípios consorciados que iniciará as atividades de fiscalização dos serviços prestados no início de 2016. O CTS-ProSinos será composto por 10 membros, sendo 4 da diretoria Executiva Colegiada, o Diretor Executivo do Consórcio e 5 usuários. As atribuições do órgão são de regulação e fiscalização de todas as atividades do saneamento básico: abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo dos resíduos sólidos, limpeza urbana e drenagem pluvial. De acordo com o presidente do Pró-Sinos e Prefeito Municipal de Esteio, Gilmar Rinaldi, “é fundamental estimular a solidariedade e a cooperação entre os entes federados; manter mecanismos permanentes de informação à sociedade sobre o desempenho, eficiência, qualidade e eficácia dos serviços de saneamento”. Atualmente, a regulação é feita pela Agergs – Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do sul que atua nas áreas de saneamento, energia elétrica, polos de concessões rodoviárias, hidrovias, irrigação, transportes intermunicipais de passageiros e estações rodoviárias. Serviço: O quê? 1ª Conferência de Regulação do Consórcio ProSinos para constituição do CTC – ProSinos (Conselho Técnico Consultivo). Quando: 17 de dezembro – Quinta, às 18h. Onde? Universidade Feevale – Campus 2; prédio bicolor; sala 201, Vila Nova; Novo Hamburgo.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Crime e castigo

Por Julio Dorneles* Artigo publicado no JG (Jornal de Gramado, Grupo Editorial Sinos, 17.11.2015, p. 4). Pense no que há em comum entre as mais recentes tragédias que nos atingiram? O que facilitou e até potencializou a tragédia da Kiss (Santa Maria/RS) e a que acaba de literalmente matar o Rio Doce (Mariana/MG)? Minha hipótese do que há em comum é a confusão conceitual que praticamos no Brasil ao confundir e misturar conceitos distintos como “tragédia”, “desastre”, “acidente” e “crime”. Quem nunca ouviu as seguintes expressões: a lei é para os outros, a gente faz de conta que fiscaliza, se formos rigorosos no cumprimento da legislação ambiental prejudicamos o desenvolvimento, perdemos votos... E por aí vai. Essa corrupção original, muito anterior a toda a baboseira reinante sobre corrupção na Petrobras e no país de um modo geral, é o nosso problema. Falta-nos uma revolução mais importante do que qualquer revolução “liberal”, “socialista” ou “socialdemocrata”. Precisamos de uma revolução na administração pública que tenha respaldo na sociedade, base social e que trabalhe em longo prazo a mudança nessa cultura perversa. Não fosse essa cultura poderíamos ter acidentes ou desastres naturais, mas não foram esses os casos mencionados. Nos dois casos as normas básicas de segurança e meio ambiente, bem como procedimentos absolutamente rotineiros de engenharia foram ignorados, negligenciados ou mesmo escandalosamente violados. De nada serviram os laudos, pareceres, vistorias e relatórios técnicos para evitar ou prevenir as tragédias recentes. É preciso pensar sobre isso, mas, principalmente, é preciso agir para que tragédias perfeitamente evitáveis não se repitam. Mais de mil dias se passaram da tragédia da Boate Kiss, nada devolve a vida das 242 vítimas. Muito pouco foi feito para que o ocorrido sirva para que não tenhamos uma nova Kiss. Aliás, o movimento para tornar flexíveis os alvarás se mostrou muito mais forte do que a dor e o clamor das famílias das vítimas. Devemos saber que mil dias também passarão daqui pra frente e, ainda assim, o Rio Doce não voltará a fazer jus ao nome. Enquanto permanece essa cultura de que em nossa sociedade os crimes não vêm necessariamente acompanhados do correspondente castigo, seguimos penando e pagando pelas consequências óbvias dessa norma não escrita. A mudança não vem sem uma transformação cultural. Trata-se de uma tragédia social, sem dúvida. Afinal, agir preventivamente antes evitaria tantos crimes que nem falaríamos em castigos. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor. juliodorneles@hotmail.com

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Nem Haiti, nem Grécia - artigo de opinião no JG (Jornal de Gramado), edição desta terça, 1º de setembro - 2015

Nem Haiti, nem Grécia Por Julio Dorneles* Com pouquíssima ou nenhuma consideração pelos povos grego e haitiano, os bordões se multiplicam em terras gaúchas e brasileiras. Apagou-se a memória dos anos 1990. Naqueles miseráveis dias em que eu via frequentemente crianças vasculhando as lixeiras do condomínio no bairro “nobre” da cidade. Era um escândalo. Duas meninas, loiras e de olhos com o azul de mais celeste, catando algo para comer. Eram tantas e tantas as misérias que Caetano Veloso cantava “Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”. Sim, era e não era, é e não é. O bordão da hora não é mais o Haiti, é a Grécia. O Rio Grande em “crise” é a Grécia. Não se tem memória da quebradeira generalizada iniciada nos EUA em 2007/8 (crise do subprime), que se espalhou pelo mundo, gerando, inclusive, não a crise “grega”, mas a Eurocrise. Sim, é isso mesmo. Desde então a Europa vive uma crise ainda não superada. De lá pra cá, várias economias quebraram na Europa (Grécia, Irlanda, Itália, Portugal, Espanha, Eslovênia, Eslováquia e Países Baixos). Os EUA têm alternado crescimento pífio com recessão econômica. A Alemanha talvez seja na Europa aquele país que tem o melhor desempenho, ainda assim, com altos custos e sem grandes perspectivas no horizonte próximo. A China dá sinais de que sentiu com muita força o impacto da crise financeira gerada nos mercados do Ocidente (governos se endividando para salvar bancos). Até ontem ninguém sabia que Syriza era a esquerda radical vencedora nas eleições gregas de janeiro de 2015 (os neonazistas chegaram em 3º lugar!). Passados poucos meses de governo, o próprio primeiro-ministro Aléxis Tsípras percebeu que a plataforma de esquerda, diante da realidade europeia, está mais para mito otimista do que para plano de governo. Como governar pela esquerda nos marcos do atual sistema financeiro-capitalista que acabou com a soberania grega? Responder a essa questão não é nada fácil. E olha que nem precisamos ler as quase 800 páginas de “O Capital no século XXI” de Thomas Piketty para saber que o capitalismo vive de “crises” e que crescimento econômico é mais exceção do que regra no mundo. Tudo isso é pertinente para o Brasil também, tanto à esquerda quanto à direita. Mas para saber o que fazer pela direita, nem é necessário esforço intelectual, basta ver o que está em curso na República do Piratini. Mas, enfim, é aqui e não é aqui. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cidadãos de “Bem”

Por Julio Dorneles* A verdade é que vivemos regidos por um preconceito finalista, o de que há um fim a ser seguido, bem entendido, no sentido de que há uma finalidade derradeira e certa, uma meta última a ser atingida. Desse preconceito geral, o desdobramento consequente é a consagração de outros dois: o do Bem e o do Mal. Isso já foi chamado de maniqueísmo, superstição, ou mesmo “heresia”. Eu denomino simplesmente de engodo, engano, erro, distorção da realidade e de todas as evidências. Quando estamos falando da natureza humana, da ética, de vivências reais, incorremos em erro ao estabelecermos esses preconceitos como conhecimento a priori. Uma das maiores evidências do que falo está na linguagem corrente que se refere aos ditos “cidadãos de bem” (que se existem a priori, por evidente, devem existir, do mesmo modo, “cidadãos do mal”). Basta ler o jornal, ouvir o rádio, ver a TV, navegar nas redes, conversar no café, isso está em todos os espaços sociais e virtuais. Essa concepção é real mas não é verdadeira. É real no sentido de que é a leitura do mundo realizada por muitos, mas é falsa porque é uma visão ilusória da realidade, muito próxima dos contos de fada. Se não, vejamos: Caso 1: o casal vivia uma história em comum havia 7 anos em São Leopoldo, até que o homem “de bem” da relação, contrariado em sua vontade, decepou as duas mãos e um dos pés de sua companheira, além de desferir golpes que deixaram marcas por todo o corpo de sua companheira. Até então, o autor dessa violência brutal era um “cidadão de bem”, sem qualquer antecedente criminal. Caso 2: Por esses dias, em Charqueadas, um jovem adolescente (17 anos) foi brutal e covardemente assassinado por 14 pessoas após uma discussão na saída de uma festa cujo objetivo era arrecadar fundos para a formatura. Dos 14 agressores, 7 pelo menos eram “maiores” (ente 18 e 20 anos) de idade. Os agressores integram um “bonde” e se consideram “cidadãos de bem”, incluindo aí o “direito” de fazer “justiça” com as próprias mãos. Caso 3: Nem o primeiro, nem o último, mas um idoso (70 anos), militar da reserva, ficha limpa, homem “de bem” até então, foi preso por policiais civis que desconfiaram de uma maleta conduzida pelo insuspeito perfil. Na residência dele encontraram um arsenal. Ele até então era um colecionador. Qual era sua atividade extra? Fornecia armas de grande potencial a traficantes. Bem, os casos se multiplicam. Então, tenha cuidado com os preconceitos, pois tu podes estar confundindo conhecimento com imaginação. E, por evidente, não são a mesma coisa. Artigo de opinião publicado originalmente no JG (Jornal de Gramado - Grupo Editorial Sinos), p. 4 (na sexta-feira,14/08/2015).

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Contra as mulheres

Artigo publicado no Jornal NH (Novo Hamburgo e Região Metropolitana de Porto Alegre/Vale do Sinos. edição de 16/07/2015, p. 12) Eu estou pasmo com o alto índice de falta de noção (IFN) com o que temos convivido. Digo isso não por qualquer motivo, nem sem fundamentos. O grau de falta de razoabilidade e de bom senso é algo fora do tolerável. Notem que falo em “bom senso”, não em senso comum. Até por que se senso comum fosse solução para alguma coisa, “todos os nossos problemas acabariam”. Senso comum é algo tipo a propaganda do já falecido programa de comédia na televisão, das famosíssimas “Organizações Tabajara”. Pelo senso comum, catalizado e potencializado por poderosos formadores da opinião pública, bastaria para acabar com a violência e a criminalidade implantar imediatamente a redução da maioridade penal, inclusive, com adoção da pena de morte para os crimes mais graves. Eis que, não mais que de repente, magicamente, toda a cultura de violência, os históricos que apresentamos desde que iniciaram os registros aqui no Brasil (e não na Dinamarca ou na Lua, como querem alguns), cairiam para patamares aceitáveis de civilização. Como compreender que um líder, que se diz evangélico, dos mais poderosos do Rio de Janeiro esteja tão engajado e preocupado com as uniões homoafetivas, como se fossem algo “contrário à natureza”, e não diga uma palavra sequer sobre a vergonhosa violência reinante contra as mulheres em nossa sociedade? Pois eu estudei teologia, nasci e me criei em comunidades evangélicas até bem tradicionais e, por que não dizer, em muitos aspectos, comunidades conservadoras. Posso perfeitamente identificar as raízes do que nele é ativo, público e militante, mas não consigo compreender a omissão com a violência existente nas famílias “tradicionais” defendidas pelo líder (um pastor) contra as mulheres. Esta sim, a violência contra as mulheres é um risco efetivo à vida saudável em família. Um exagero? Não, infelizmente não é. Seja no Rio de Janeiro ou aqui no RS, os dados são impressionantes e muito superiores aos apresentados sobre os crimes cometidos por adolescentes. Cerca de 15 mulheres são mortas por dia no Brasil. Cerca de 250 são agredidas a cada hora. Há mais de 50 mil casos de violência contra as mulheres tramitando na Justiça Estadual gaúcha. E, pasmem, fiquei sabendo que em somente uma de nossas cidades, que tem mais de 200 mil habitantes (e não tem delegacia especializada da mulher), cerca de 40% dos casos atendidos nas delegacias são de violência contra as mulheres. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Desenvolvimento humano x concentração - terceira e última parte

Desenvolvimento humano x concentração – Parte III Por Julio Dorneles* Os índices existentes para mensurar o desenvolvimento humano são importantes mas limitados, como bem adverte o professor Luis Roque Klering (EA/UFRGS). Aliás, é importante frisar, Klering é uma das maiores referências nesse tema. Quando da minha especialização em administração pública, sendo Klering meu orientador, pude perceber a importância de acompanharmos a evolução dos indicadores socioeconômicos, especialmente porque eles podem fornecer informações relevantes sobre o desempenho de políticas públicas para os municípios. Não tenho dúvidas, por exemplo, que houve uma expressiva melhora dos índices apresentados pelos municípios brasileiros pós anos 90. Em 1991 apenas 1% dos municípios brasileiros apresentavam a classificação com Índice de Desenvolvimento Humanos (IDH) “alto”, já em 2010 essa classificação compreendia 74% dos municípios. Pode não ser uma revolução. Sem dúvida que não se trata disso. Mas foi um avanço muito expressivo. Nossos municípios ainda apresentam desigualdades brutais, mesmo em municípios com alto índice de desenvolvimento humano há desequilíbrios de renda. A educação ainda está muito longe de patamares mais desenvolvidos. E na saúde ainda é um desafio tão imenso quanto o território nacional. Mas é notável que além do crescimento significativo do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro houve uma série de políticas que contribuíram para esse avanço. O combate à pobreza e à miséria, o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, PAC Saneamento, maiores aportes na educação através do Fundeb, acesso à escola, acesso ao ensino superior, ampliação do ensino técnico, investimentos dos municípios na educação infantil, acompanhamento da saúde no pré-natal e na primeira infância, atenção básica e estratégias de saúde da família, tudo isso e mais explicam os avanços. Contudo, ainda há muita concentração e desigualdade, não só de renda. Há concentração de equipamentos nas áreas de saúde e educação em cidades-polo e regiões metropolitanas. Isso ainda é uma realidade muito forte na relação entre São Paulo e região Sudeste e o restante do Brasil. Acontece também dentro de cada Estado, entre diferentes regiões dentro de diferentes estados. No nosso RS, nessas áreas, ainda temos “centros” de alta concentração de saúde e educação em Porto Alegre, Caxias do Sul e Santa Maria. Precisamos de múltiplos centros em todas as regiões, para que se crie uma rede de desenvolvimento humano mais equilibrado e sustentável ao longo do tempo. Também devemos observar com atenção os 10 municípios mais bem colocados no Índice de Desenvolvimento Socioeconômico do RS (IDESE/2011-2012): Carlos Barbosa, Aratiba, Nova Bassano, Nova Bréscia, Nova Araçá, Garibaldi, Vila Maria, Veranópolis, Westfalia e Ivoti. Nós, certamente, teremos muito a aprender com eles. Artigo publicado na edição desta sexta-feira, dia 19 de junho de 2015, do JG - Jornal de Gramado (Grupo Editorial Sinos), p. 4. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Desenvolvimento humano x concentração – Parte II

Por Julio Dorneles* Quando falamos em desenvolvimento humano precisamos ponderar fatores econômicos mas também variáveis históricas e culturais que marcam nossa sociedade. As decisões tomadas lá no passado, quando da colonização e do povoamento do Rio Grande do Sul, têm sido perenes em seus efeitos. Como se sabe, o Brasil Império tomou decisões ao longo do século 19 que não só definiram o traçado geográfico do Estado mas também o padrão de sua ocupação territorial. Assim, o RS mantém por muito tempo a produção agropecuária especialmente das regiões Sul, Oeste e Noroeste em grandes propriedades, com culturas extensivas e voltadas à exportação. Embora isso gere uma riqueza expressiva para o Estado, não apresenta uma dinâmica distributiva na mesma proporção. Ao contrário, concentra em poucas famílias a riqueza e mantém a maior parte da população urbana e rural com baixa renda. Podemos observar o Sul. Lá está Pelotas, a 3ª maior cidade do Estado. Que surgiu e cresceu no ritmo da cultura do “charque”, e que nas últimas décadas do século 18 e primeiras do 19 gerou um considerável acúmulo de riqueza para as famílias estancieiras e o crescimento (por atração) urbano da cidade. Exemplo de crescimento econômico, não necessariamente de desenvolvimento humano. A partir do núcleo original em tabuleiro de xadrez, o crescimento foi adicionando uma grande cidade, com uma periferia expressiva e empobrecida. É preciso registrar que os indicadores em Pelotas eram baixos e médios até 1991 (Índice de Desenvolvimento Humano/IDH era 0,558) e passaram por melhorias expressivas, chegando aos patamares médio e alto nos anos recentes (no IDH/2010: 0,739). Contudo, as melhorias ocorridas recentemente não apagaram as marcas da dinâmica econômica de Pelotas e de seu entorno. Isso ainda está bem claro quando a colocação de Pelotas no IDESE/2012 (FEE/RS): 317º posição entre os 497 municípios gaúchos. Olhemos agora para Picada Café (5.182 habitantes), jovem município (desmembrado de Nova Petrópolis em 1992), que se encontra no caminho para Gramado. Município com pequenas propriedades de agricultura familiar, mas que tem a presença da indústria e a participação do comércio e dos serviços em sua economia. Saiu de um IDH médio (década de 90) para alto (IDH/2010: 0,758 – IDESE/2012: 0,839). Sendo que sempre manteve-se acima da média do desempenho do Estado no IDH. Pelo IDESE, Picada Café está na 30ª posição dentre todos os municípios gaúchos. Seja no bloco Educação, seja no da Renda ou no da Saúde, a pequenina Picada Café apresenta índices de desenvolvimento humano melhores do que os de Pelotas. Picada Café na região mais desenvolvida do Estado, com pequenos e médios municípios, onde precisamos procurar com determinação para encontrarmos a pobreza. * Segunda parte - publicada hoje (12/06/2015), p. 4 do JG (Jornal de Gramado - Grupo Editorial Sinos)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Desenvolvimento humano x concentração – Parte I

Fala-se muito nos dias atuais na necessidade de crescimento econômico: “temos um PIBinho, estamos desacelerando, vivemos uma crise, a economia está num atoleiro”. E, de fato, desde 2008 a economia mundial está apresentando solavancos, quedas, e, quando há algum crescimento, ele vem de modo muito lento. Tão lentamente que, como nos casos dos EUA e dos países europeus, dificilmente recupera as perdas. Em nosso caso (Brasil), passamos muito bem pelo chamado auge da crise e só passamos a apresentar sinais mais claros de que não estávamos imunes a partir de meados do ano passado (no último trimestre PIBs desaceleraram: - 0,7 nos EUA, - 0,3 nos países da OCDE e – 0,2 no Brasil). O PIB é soma (em valores monetários) de todos os produtos e serviços gerados por uma determinada região ou país em determinado tempo (ano). Quando pegamos essa soma e dividimos pela população correspondente àquela determinada região temos o PIB per capita (por pessoa). Quanto maior for o PIB per capita, maior deve ser a riqueza e a tendência de desenvolvimento da região ou país. Isso é uma tendência, não uma verdade absoluta. Também é notável que em países ou regiões onde há concentração excessiva da riqueza e determinadas áreas metropolitanas ou cidades-polo, outras partes apresentam índices muito baixos de produção e as desigualdades podem ser muito acentuadas. Para percebermos isso não necessitamos de muito estudo nem de compararmos os números, por exemplo, da Suécia (na Escandinávia) com os do recém criado Sudão do Sul (no nordeste da África). Basta observarmos o nosso Rio Grande do Sul (RS). Já é um clássico de nossa história econômica e social. Temos regiões de pequenas propriedades (minifúndios), com micros ou pequenos municípios, com presença da indústria, de agricultura familiar, com populações predominantemente de origem alemã e italiana e com as melhores rendas per capita. De outro lado vastas regiões ao sul e a oeste do estado, muito dependentes de atividades agrícolas e pecuárias em grandes propriedades, em municípios antigos, com população dominante de origem portuguesa-açoriana, indígena e polonesa (noroeste do RS), com os piores índices de desenvolvimento humano. Os principais índices que medem o chamado desenvolvimento humano (não só econômico, mas também social) fazem uma mensuração (medida) a partir de indicadores de três grandes blocos: Saúde, Educação e Renda. Esses três grandes conjuntos estão ponderados no Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH (do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD), e no Índice de Desenvolvimento Socioeconômico, o IDESE (da Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser – FEE, RS). Eles podem auxiliar-nos na compreensão da real qualidade de vida para além da medida do crescimento do PIB per capita. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor. (este artigo de opinião foi publicado em 05/06/2015, na página 4 do JG (Jornal de Gramado, Grupo Editorial Sinos).

As dimensões do desastre no RS

Imagem: Inundação na Bacia do Guaíba/RS (Imagem de satélite/NASA)   Por Julio Dorneles * O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística...