quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Futebol

Por Julio Dorneles* (artigo de opinião publicado no Jornal de Gramado, em 10.12.2015, p. 9) Eu era um adolescente. Não tinha lá muito talento para o futebol. Quando mais criança havia abandonado o posto de goleiro de Handebol após desmaio resultante de uma violenta bolada que atingiu minha cabeça. Defendi. O gol do adversário não saiu, mas eu achei que não era uma boa posição para mim na equipe. Depois disso, eventualmente, fui para o Futebol. Mas muito raramente estive na equipe titular ou envolvido em grandes disputas. Para minha surpresa, na antiga 7ª série do Ensino Fundamental, o professor me convocou para um torneio que se realizaria em uma cidade próxima. Lá fomos eu e meus parceiros. Rolando o torneio fomos indo razoavelmente para as partidas decisivas. Enfrentamos a partida que nos colocaria na final, jogamos bem, mas perdemos nos pênaltis a classificação para a disputa do título. Tivemos que nos contentar com a disputa pelo terceiro lugar. A partida foi novamente terrível. Perdemos no detalhe, 2x1. Passou um tempo, acho que uns dois ou três meses, e veio o professor com as medalhas. As medalhas não eram de quarto colocado, mas de terceiro. “O que houve professor?” Haviam descoberto uns “gatos” no nosso adversário. Verdade que eu não era de grande porte, mas aqueles caras que nos marcavam eram muito maiores que nós. Algo estava mesmo errado. Hoje há uma onda de transformar tudo na vida em uma partida de futebol. Um jogo de quem perde e quem ganha. E não pode evidentemente ser assim. É inaceitável. Na política, na administração pública e privada, no hospital, na vida das pessoas, não se trata de uma partida de futebol ou um campeonato. Uma partida pode ocorrer sem prejudicar ninguém se seguir as regras, e poderá ser reeditada, por exemplo, em inúmeros grenais. Esse jogo do impeachment já estava fora da pauta, e voltou. Com base nenhuma, sem respeito à Constituição e às regras mínimas destinadas a assegurar avanços e corrigir erros. A mesma lógica dos que o defendem, se aplicada a todos que “pedalaram”, levaria ao afastamento de 99% dos governadores, prefeitos e até mesmo de gestores de empresas privadas, os quais, em tempos de crise, tem nas pedaladas uma alternativa de sobrevivência. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor. juliodorneles@hotmail.com