domingo, 30 de dezembro de 2012

Artigo acerca das recorrentes mortes no Rio dos Sinos


Impróprias águas
Julio Dorneles*
 
Ao nascer, a mãe o mergulhou no Estige, o rio infernal, para torná-lo invulnerável. Mas a água não lhe chegou ao calcanhar, pelo qual ela o segurava, e que assim se tornou seu ponto fraco - o proverbial "calcanhar de Aquiles".
 
As frequentes mortes recorrentes no trecho leopoldense do Rio dos Sinos provocam nossa reflexão e lançam inquietudes existenciais de gerações passadas e futuras na ordem do dia. Como pessoas adultas, por vezes levando seus filhos, se arriscam em águas impróprias para o banho e incompatíveis com parâmetros de saúde e de segurança?

Prolongadas estiagens e calor intenso agravam e aceleram a degradação da qualidade da água do Sinos no seu curso capilé de tal forma que é difícil visualizá-lo como um “rio”. Ao mesmo tempo, esse rio parece exercer tal magnetismo que “justifica” ou dá vasão a que sujeitos deixem suas frágeis existências esgotarem-se em seus leitos.  Isso em um canal não superior a 3 km de extensão, onde outrora pulsava a vida social e afetiva de gerações de leopoldenses, desde 1824, a cada ano se acumulam lápides à ausência ou repressão da razão. Aliás, salta aos olhos o fato de boa parte das mortes ocorrer justamente no ponto de desembarque dos primeiros imigrantes alemães, antes de se destinarem à Feitoria. Também é esse ponto do rio o mais dramático do ponto de vista da qualidade da água, tendo em vista que recebe das cidades a montante a maior concentracão de poluentes orgânicos e químicos. Sendo que os maiores volumes de suas águas se expraiam nas regiões de Rolante a Campo Bom, e os efeitos do remanso do Delta do Jacuí já não chegam a São Leopoldo como às cidades a jusante. Resultado, mais carga poluidora concentrada e menos disponibilidade de água.

Ainda que estejam vasão e níveis baixos (principalmente durante o Verão), o Rio dos Sinos reserva, até mesmo a nadadores e salva-vidas profissionais, armadilhas que capturam os frágeis organismos humanos. Estes se vão do cenário familiar em impróprias águas, prematura e inconsequentemente. Até porque as águas do Sinos não se adequam a condições mínimas de balneabilidade, menos ainda à vontade daqueles que, ainda que inconscientemente, negam a sua natureza humana, ou seja, sua fragilidade e transitoriedade. Falta-nos educação ambiental, mas, principalmente, a noção de respeito à natureza e seus sistemas, imensamente superiores a nossas vontades individuais.

Sabe-se que os primeiros passos significativos para a recuperação ambiental do Rio dos Sinos foram dados desde a criação do Consórcio Pró-Sinos em 2007, integrando ações, programas e projetos de prefeituras, companhias de saneamento, Governo do Estado e Governo Federal. Contudo, a jornada da revitalização da Bacia do Sinos é ainda mais longa em termos sociais e culturais do que no “saneamento”, stricto sensu.

*Professor esp. em administração pública, ex-diretor executivo do Pró-Sinos. Atual Coordenador Geral da FAMURS.

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