terça-feira, 21 de abril de 2009

Artigo do Prof Márcio Silveira dos Santos - pelo Dia da Terra e Dia do Índios

Sem tekoá não há teko
por Márcio Silveira dos Santos*



Por estes dias, os tambores rufam mais forte nas aldeias do mundo. Celebram-se o dia do índio e da terra, respectivamente nos dias 19 e 22 de abril. Muitos povos indígenas realizam durante a semana atividades em seus territórios. No Rio Grande do Sul, tanto os guaranis quanto os caingangues realizam torneios de futebol, apresentam danças tradicionais, músicas, exposição de artesanato e oferecem o almoço vejen, como é chamada pelos caingangues uma comida feita dos produtos plantados na aldeia. O público de fora é convidado, mas o número de pessoas presentes é pequeno se comparado com outras festividades do calendário brasileiro. Reflexo do esquecimento de boa parte da população da existência e importância dos saberes indígenas.

Os índios, nativos donos destas terras antes dos imigrantes chegarem, vivem neste desamparo. A luta pela demarcação das terras levará muitas décadas ainda. O que os governos têm feito para resolver esta questão é como sopro sem força na tempestade política do país. A morosidade em busca de soluções vem desde a criação do Estatuto do Índio, Lei 6.001/1973, que visava estabelecer, no prazo de cinco anos, a demarcação de todas as terras. Depois, veio a Constituição Federal de 1988 reafirmando o prazo. Sem a terra, não há como viver. É dela que os índios extraem frutas, caça, pesca, plantas medicinais e o material para fazer o artesanato que vendem. Falta respeito para com os povos indígenas. O compromisso assumido deve ser efetivado.
Outra questão que serve de exemplo para a população brasileira, além da luta pela terra, é a educação indígena, que parte de sua cultura e seu modo de ser. Uma educação para a vida que pode representar para a humanidade uma fonte alternativa de aprendizagens, de elementos repletos de sabedoria e conhecimento milenar. Segundo o cacique Mbyá Guarani Cirilo Morinico, a sabedoria dos mais velhos dentro das aldeias ilumina e orienta os passos e a vida dos índios mais jovens, não se carrega preconceito, pelo contrário, muita consideração e respeito. Todos os dias, os jovens ouvem conselhos das avós e dos avôs da comunidade guarani da Tekoá Anhetengua, Aldeia Verdadeira, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre.
Ainda em tempo de reconhecimento, haverá em setembro a 1ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, em Brasília. Além dos debates sobre o cumprimento da Lei 11.645/08, que obriga a inclusão de história e cultura indígena no currículo oficial da educação brasileira, será discutida uma gestão compartilhada, baseada na territorialidade etnoeducacional a partir da diversidade étnica indígena. Assim sendo, é possível ver esperança para a causa indígena. Porque sem espaço para viver não há como ser, em Mbyá: sem tekoá não há teko.
*Professor

Zero Hora 21 de Abril de 2009.

Nenhum comentário: