sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SEM-TERRA é morto em ação da Brigada Militar


Nesta manhã, 232 policiais militares participaram da reintegração de posse do terreno de cerca de 6 mil hectares que havia sido ocupado no último dia 12.

Do outro lado, estavam cerca de 270 sem-terra — metade deles composta por mulheres e crianças — que estavam em barracas no pedaço de terra invadido.

Por volta das 7h30min, a Brigada Militar cercou o acampamento e começou a desocupação. Pouco tempo depois, uma maca saiu carregando Elton Brum da Silva, 44 anos, baleado com um tiro nas costas que saiu pelo peito, segundo a Polícia Civil.
Levado pelos bombeiros, ele já chegou morto à Santa Casa de São Gabriel.
A Brigada dispunha de fotos aéreas do acampamento dos invasores e planejou a ação com base nessas imagens. Segundo a promotora de Justiça Lisiane Villagrande Veríssimo da Fonseca, de São Gabriel, que acompanhou a ação a pedido da Brigada e do Ministério Público, os sem-terra, no momento em que uma oficial de Justiça leu a ordem de reintegração de posse, já demonstraram que não tinham a intenção de sair:
— Os manifestantes batiam com foices, soltavam fogos de artifício e gritavam palavras de ordem — conta Lisiane.
Uma retroescavadeira tentou romper a barricada feita pelos sem-terra com galhos e madeiras, em volta do acampamento, mas a máquina acabou caindo em uma trincheira. No lado oposto ao acampamento, um trator conseguiu derrubar a barricada e a cerca de arame farpado. Enquanto isso, os policiais jogavam bombas de efeito moral e entravam pela parte da frente do acampamento, a pé e a cavalo. Nesse momento, houve conflito. Segundo a promotora, em menos de 10 minutos os sem-terra estavam dominados. A Brigada retirou, em grupos de 20 a 30 pessoas, as mulheres e as crianças que estavam no local. Em seguida, o mesmo foi feito com os homens. Também em grupos, os homens foram sendo identificados um a um. As mulheres e as crianças foram levadas em ônibus, por volta do meio-dia, para o acampamento Filhos de Sepé. Os homens foram para esse acampamento só no início da tarde, com exceção dos 18 líderes do grupo, que foram para a Delegacia de Polícia Civil de São Gabriel.
Pelo menos 13 pessoas foram atendidas na Santa Casa de São Gabriel com ferimentos — nove integrantes do MST e quatro policiais militares. Os PMs tiveram escoriações. Os sem-terra, na sua maioria, tinham cortes na cabeça. O MST alega que foram mais de 40 feridos entre seus integrantes. Alguns ainda estavam sendo atendidos no início da noite de sexta-feira, momento em que começava, na capela 3 da Santa Casa de São Gabriel, o velório do sem-terra morto a tiro.


O Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra divulgaram nota onde lamentam a morte do agricultor Elton Brum da Silva, em São Gabriel.

De acordo com o texto, o ministro Guilherme Cassel determinou o deslocamento do ouvidor agrário nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho à área do conflito.

"A morte deste agricultor vai na contramão dos esforços do Governo Federal no sentido da construção de um ambiente de paz no campo", informa o comunicado. Confira a íntegra da nota à imprensa:
1.O Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária lamentam profundamente o trágico desfecho da ação de desocupação da fazenda Southall em São Gabriel, realizada pela Brigada Militar do Rio Grande do Sul, que resultou na morte do agricultor Elton Brum da Silva.
2.Após o conhecimento do triste episódio, o Ministro Guilherme Cassel determinou a ida do Ouvidor Agrário Nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho, à área do conflito de maneira a acompanhar a apuração dos fatos e a identificação dos responsáveis. O Ouvidor Agrário Nacional está no Estado e estabeleceu contatos com Procuradoria de Justiça, Ministério Público, Poder Judiciário do RS e Polícia Civil, com o objetivo de assegurar uma investigação célere e transparente.
3.A morte deste agricultor vai na contramão dos esforços do Governo Federal no sentido da construção de um ambiente de paz no campo. A análise da realidade brasileira revela uma diminuição das situações de conflito no campo e, principalmente, no número de vítimas fatais decorrentes destes conflitos. Em 2003 houve 42 casos de morte confirmados em conflitos agrários. Em 2008 foram nove casos e nenhum deles em ação da polícia.
4.Este ambiente é resultado de esforços do MDA/Incra, por meio da Ouvidoria Agrária Nacional e apoio dos comandos das forças policiais da maior parte dos estados brasileiros, Ministério Público e órgãos do Poder Judiciário. Esses órgãos formularam diretrizes para cumprir mandados de reintegração de posse em situações de conflito. Fosse esta a orientação seguida pela força policial do RS, o desfecho poderia ser outro, sem violência e, principalmente, sem uma vítima fatal.
5.O Ministério do Desenvolvimento Agrário e o Incra se solidarizam com a dor dos familiares do agricultor vitimado e reafirmam seu compromisso em transformar o campo brasileiro em um espaço de paz, produção e prosperidade.

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