segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Não se brinca com fogo

Qualquer criança sabe: “não se brinca com fogo”. Juro que tentei lembrar exatamente quando ensinei minhas filhas a não brincarem com fogo. Faz tanto tempo que não consigo lembrar exatamente, mas sei que isso foi algo tão natural que já falava com elas sobre isso nos primeiros anos de vida, muito provavelmente já tivera feito isso com a primeira filha junto ao seu bolo de primeiro ano de vida no momento de “assoprarmos” a velinha. Falo disso em razão da tragédia na Boate Kiss (Santa Maria/RS-Brasil), pelo evento trágico em si e por sua repercussão. Eu e minha esposa vivemos a agonia de saber que lá esteve nossa enteada/filha e, em seguida, o grande alívio quando informados de que ela estava salva. Quanto a ela, os cortes e as lesões eram nada perto da perda de quase três centenas de jovens vidas. Quanto a nós, o que passamos não era nada perto do que viviam um número infindo de mães, pais, irmãs, irmãos, avós, avôs, tias, tios, primas, primos... amigos, enfim, todos com algum laço familiar e afetivo com aquelas vítimas que tiveram suas vidas interrompidas por ações e omissões criminosas. Creio que não resta qualquer dúvida de que todas as responsabilidades diretas ou indiretas nessa tragédia devam ser apuradas e a aplicação da lei que rege os crimes dolosos, em toda a extensão, rigor e profundidade, deve prevalecer sobre qualquer poder ou vontade de modo exemplar. Já falaram sobre tudo isso o prefeito, o governador e a presidenta. O Estado, em qualquer de suas instâncias, níveis, competências e atributos sempre responderá por suas ações ou omissões. O poder público municipal tem o poder de política administrativa, pode abrir e pode fechar estabelecimentos de todo tipo, só não pode se omitir. Sabe-se que ocorreram omissões e negligências do poder público em tudo que antecedeu a tragédia na Boate Kiss. Por outro lado, foi visível a atuação forte e eficaz no mesmo poder público em resposta imediata e continuada ao incêndio e toda a destruição causada. A repercussão do crime no mundo foi equivalente a de um ato terrorista de larga escala. A resposta, o socorro, a mobilização de milhares de voluntários, igualmente extensa. Agora, considero inacreditável e inaceitável que assistamos manifestações nas redes sociais e em parte da cobertura jornalística, que têm sistematicamente deixado os autores da barbárie em segundo plano. Não foram poucos que vi e li querendo ver a tragédia fundamentada na ação ou omissão da prefeitura, dos bombeiros, do governador ou de qualquer um que entendam ser a expressão de um poder público “falido”, “ineficiente”, “incompetente”. Esqueceram-se com facilidade dos rapazes da banda que utilizavam sinalizador com alto poder de fogo. Ignoram e até encontram “defesa” para os proprietários da boate que “não autorizaram nem desautorizaram nada” em relação ao show que ocorria em espaço seu, privado, não público. Pobres mentes, já que não sabiam até agora, fiquem sabendo: não se brinca com fogo, não se joga com a vida dos outros, não é permitido confinar pessoas em espaço privado e submetê-las a risco de morte, com ou sem alvará dos bombeiros. Pelo menos os que causaram essa tragédia e acabaram com a vida de nossos filhos e filhas não poderão alegar desconhecimento da lei em seu favor. Julio Dorneles é professor, especialista em administração pública e coordenador-geral da Famurs

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