terça-feira, 17 de novembro de 2015

Crime e castigo

Por Julio Dorneles* Artigo publicado no JG (Jornal de Gramado, Grupo Editorial Sinos, 17.11.2015, p. 4). Pense no que há em comum entre as mais recentes tragédias que nos atingiram? O que facilitou e até potencializou a tragédia da Kiss (Santa Maria/RS) e a que acaba de literalmente matar o Rio Doce (Mariana/MG)? Minha hipótese do que há em comum é a confusão conceitual que praticamos no Brasil ao confundir e misturar conceitos distintos como “tragédia”, “desastre”, “acidente” e “crime”. Quem nunca ouviu as seguintes expressões: a lei é para os outros, a gente faz de conta que fiscaliza, se formos rigorosos no cumprimento da legislação ambiental prejudicamos o desenvolvimento, perdemos votos... E por aí vai. Essa corrupção original, muito anterior a toda a baboseira reinante sobre corrupção na Petrobras e no país de um modo geral, é o nosso problema. Falta-nos uma revolução mais importante do que qualquer revolução “liberal”, “socialista” ou “socialdemocrata”. Precisamos de uma revolução na administração pública que tenha respaldo na sociedade, base social e que trabalhe em longo prazo a mudança nessa cultura perversa. Não fosse essa cultura poderíamos ter acidentes ou desastres naturais, mas não foram esses os casos mencionados. Nos dois casos as normas básicas de segurança e meio ambiente, bem como procedimentos absolutamente rotineiros de engenharia foram ignorados, negligenciados ou mesmo escandalosamente violados. De nada serviram os laudos, pareceres, vistorias e relatórios técnicos para evitar ou prevenir as tragédias recentes. É preciso pensar sobre isso, mas, principalmente, é preciso agir para que tragédias perfeitamente evitáveis não se repitam. Mais de mil dias se passaram da tragédia da Boate Kiss, nada devolve a vida das 242 vítimas. Muito pouco foi feito para que o ocorrido sirva para que não tenhamos uma nova Kiss. Aliás, o movimento para tornar flexíveis os alvarás se mostrou muito mais forte do que a dor e o clamor das famílias das vítimas. Devemos saber que mil dias também passarão daqui pra frente e, ainda assim, o Rio Doce não voltará a fazer jus ao nome. Enquanto permanece essa cultura de que em nossa sociedade os crimes não vêm necessariamente acompanhados do correspondente castigo, seguimos penando e pagando pelas consequências óbvias dessa norma não escrita. A mudança não vem sem uma transformação cultural. Trata-se de uma tragédia social, sem dúvida. Afinal, agir preventivamente antes evitaria tantos crimes que nem falaríamos em castigos. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor. juliodorneles@hotmail.com

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