terça-feira, 1 de setembro de 2015

Nem Haiti, nem Grécia - artigo de opinião no JG (Jornal de Gramado), edição desta terça, 1º de setembro - 2015

Nem Haiti, nem Grécia Por Julio Dorneles* Com pouquíssima ou nenhuma consideração pelos povos grego e haitiano, os bordões se multiplicam em terras gaúchas e brasileiras. Apagou-se a memória dos anos 1990. Naqueles miseráveis dias em que eu via frequentemente crianças vasculhando as lixeiras do condomínio no bairro “nobre” da cidade. Era um escândalo. Duas meninas, loiras e de olhos com o azul de mais celeste, catando algo para comer. Eram tantas e tantas as misérias que Caetano Veloso cantava “Pense no Haiti, reze pelo Haiti, o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui”. Sim, era e não era, é e não é. O bordão da hora não é mais o Haiti, é a Grécia. O Rio Grande em “crise” é a Grécia. Não se tem memória da quebradeira generalizada iniciada nos EUA em 2007/8 (crise do subprime), que se espalhou pelo mundo, gerando, inclusive, não a crise “grega”, mas a Eurocrise. Sim, é isso mesmo. Desde então a Europa vive uma crise ainda não superada. De lá pra cá, várias economias quebraram na Europa (Grécia, Irlanda, Itália, Portugal, Espanha, Eslovênia, Eslováquia e Países Baixos). Os EUA têm alternado crescimento pífio com recessão econômica. A Alemanha talvez seja na Europa aquele país que tem o melhor desempenho, ainda assim, com altos custos e sem grandes perspectivas no horizonte próximo. A China dá sinais de que sentiu com muita força o impacto da crise financeira gerada nos mercados do Ocidente (governos se endividando para salvar bancos). Até ontem ninguém sabia que Syriza era a esquerda radical vencedora nas eleições gregas de janeiro de 2015 (os neonazistas chegaram em 3º lugar!). Passados poucos meses de governo, o próprio primeiro-ministro Aléxis Tsípras percebeu que a plataforma de esquerda, diante da realidade europeia, está mais para mito otimista do que para plano de governo. Como governar pela esquerda nos marcos do atual sistema financeiro-capitalista que acabou com a soberania grega? Responder a essa questão não é nada fácil. E olha que nem precisamos ler as quase 800 páginas de “O Capital no século XXI” de Thomas Piketty para saber que o capitalismo vive de “crises” e que crescimento econômico é mais exceção do que regra no mundo. Tudo isso é pertinente para o Brasil também, tanto à esquerda quanto à direita. Mas para saber o que fazer pela direita, nem é necessário esforço intelectual, basta ver o que está em curso na República do Piratini. Mas, enfim, é aqui e não é aqui. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor.

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