segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Cidadãos de “Bem”

Por Julio Dorneles* A verdade é que vivemos regidos por um preconceito finalista, o de que há um fim a ser seguido, bem entendido, no sentido de que há uma finalidade derradeira e certa, uma meta última a ser atingida. Desse preconceito geral, o desdobramento consequente é a consagração de outros dois: o do Bem e o do Mal. Isso já foi chamado de maniqueísmo, superstição, ou mesmo “heresia”. Eu denomino simplesmente de engodo, engano, erro, distorção da realidade e de todas as evidências. Quando estamos falando da natureza humana, da ética, de vivências reais, incorremos em erro ao estabelecermos esses preconceitos como conhecimento a priori. Uma das maiores evidências do que falo está na linguagem corrente que se refere aos ditos “cidadãos de bem” (que se existem a priori, por evidente, devem existir, do mesmo modo, “cidadãos do mal”). Basta ler o jornal, ouvir o rádio, ver a TV, navegar nas redes, conversar no café, isso está em todos os espaços sociais e virtuais. Essa concepção é real mas não é verdadeira. É real no sentido de que é a leitura do mundo realizada por muitos, mas é falsa porque é uma visão ilusória da realidade, muito próxima dos contos de fada. Se não, vejamos: Caso 1: o casal vivia uma história em comum havia 7 anos em São Leopoldo, até que o homem “de bem” da relação, contrariado em sua vontade, decepou as duas mãos e um dos pés de sua companheira, além de desferir golpes que deixaram marcas por todo o corpo de sua companheira. Até então, o autor dessa violência brutal era um “cidadão de bem”, sem qualquer antecedente criminal. Caso 2: Por esses dias, em Charqueadas, um jovem adolescente (17 anos) foi brutal e covardemente assassinado por 14 pessoas após uma discussão na saída de uma festa cujo objetivo era arrecadar fundos para a formatura. Dos 14 agressores, 7 pelo menos eram “maiores” (ente 18 e 20 anos) de idade. Os agressores integram um “bonde” e se consideram “cidadãos de bem”, incluindo aí o “direito” de fazer “justiça” com as próprias mãos. Caso 3: Nem o primeiro, nem o último, mas um idoso (70 anos), militar da reserva, ficha limpa, homem “de bem” até então, foi preso por policiais civis que desconfiaram de uma maleta conduzida pelo insuspeito perfil. Na residência dele encontraram um arsenal. Ele até então era um colecionador. Qual era sua atividade extra? Fornecia armas de grande potencial a traficantes. Bem, os casos se multiplicam. Então, tenha cuidado com os preconceitos, pois tu podes estar confundindo conhecimento com imaginação. E, por evidente, não são a mesma coisa. Artigo de opinião publicado originalmente no JG (Jornal de Gramado - Grupo Editorial Sinos), p. 4 (na sexta-feira,14/08/2015).

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