sexta-feira, 17 de julho de 2015

Contra as mulheres

Artigo publicado no Jornal NH (Novo Hamburgo e Região Metropolitana de Porto Alegre/Vale do Sinos. edição de 16/07/2015, p. 12) Eu estou pasmo com o alto índice de falta de noção (IFN) com o que temos convivido. Digo isso não por qualquer motivo, nem sem fundamentos. O grau de falta de razoabilidade e de bom senso é algo fora do tolerável. Notem que falo em “bom senso”, não em senso comum. Até por que se senso comum fosse solução para alguma coisa, “todos os nossos problemas acabariam”. Senso comum é algo tipo a propaganda do já falecido programa de comédia na televisão, das famosíssimas “Organizações Tabajara”. Pelo senso comum, catalizado e potencializado por poderosos formadores da opinião pública, bastaria para acabar com a violência e a criminalidade implantar imediatamente a redução da maioridade penal, inclusive, com adoção da pena de morte para os crimes mais graves. Eis que, não mais que de repente, magicamente, toda a cultura de violência, os históricos que apresentamos desde que iniciaram os registros aqui no Brasil (e não na Dinamarca ou na Lua, como querem alguns), cairiam para patamares aceitáveis de civilização. Como compreender que um líder, que se diz evangélico, dos mais poderosos do Rio de Janeiro esteja tão engajado e preocupado com as uniões homoafetivas, como se fossem algo “contrário à natureza”, e não diga uma palavra sequer sobre a vergonhosa violência reinante contra as mulheres em nossa sociedade? Pois eu estudei teologia, nasci e me criei em comunidades evangélicas até bem tradicionais e, por que não dizer, em muitos aspectos, comunidades conservadoras. Posso perfeitamente identificar as raízes do que nele é ativo, público e militante, mas não consigo compreender a omissão com a violência existente nas famílias “tradicionais” defendidas pelo líder (um pastor) contra as mulheres. Esta sim, a violência contra as mulheres é um risco efetivo à vida saudável em família. Um exagero? Não, infelizmente não é. Seja no Rio de Janeiro ou aqui no RS, os dados são impressionantes e muito superiores aos apresentados sobre os crimes cometidos por adolescentes. Cerca de 15 mulheres são mortas por dia no Brasil. Cerca de 250 são agredidas a cada hora. Há mais de 50 mil casos de violência contra as mulheres tramitando na Justiça Estadual gaúcha. E, pasmem, fiquei sabendo que em somente uma de nossas cidades, que tem mais de 200 mil habitantes (e não tem delegacia especializada da mulher), cerca de 40% dos casos atendidos nas delegacias são de violência contra as mulheres. *Julio Dorneles é especialista em administração pública e consultor.

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