sexta-feira, 12 de junho de 2015

Desenvolvimento humano x concentração – Parte II

Por Julio Dorneles* Quando falamos em desenvolvimento humano precisamos ponderar fatores econômicos mas também variáveis históricas e culturais que marcam nossa sociedade. As decisões tomadas lá no passado, quando da colonização e do povoamento do Rio Grande do Sul, têm sido perenes em seus efeitos. Como se sabe, o Brasil Império tomou decisões ao longo do século 19 que não só definiram o traçado geográfico do Estado mas também o padrão de sua ocupação territorial. Assim, o RS mantém por muito tempo a produção agropecuária especialmente das regiões Sul, Oeste e Noroeste em grandes propriedades, com culturas extensivas e voltadas à exportação. Embora isso gere uma riqueza expressiva para o Estado, não apresenta uma dinâmica distributiva na mesma proporção. Ao contrário, concentra em poucas famílias a riqueza e mantém a maior parte da população urbana e rural com baixa renda. Podemos observar o Sul. Lá está Pelotas, a 3ª maior cidade do Estado. Que surgiu e cresceu no ritmo da cultura do “charque”, e que nas últimas décadas do século 18 e primeiras do 19 gerou um considerável acúmulo de riqueza para as famílias estancieiras e o crescimento (por atração) urbano da cidade. Exemplo de crescimento econômico, não necessariamente de desenvolvimento humano. A partir do núcleo original em tabuleiro de xadrez, o crescimento foi adicionando uma grande cidade, com uma periferia expressiva e empobrecida. É preciso registrar que os indicadores em Pelotas eram baixos e médios até 1991 (Índice de Desenvolvimento Humano/IDH era 0,558) e passaram por melhorias expressivas, chegando aos patamares médio e alto nos anos recentes (no IDH/2010: 0,739). Contudo, as melhorias ocorridas recentemente não apagaram as marcas da dinâmica econômica de Pelotas e de seu entorno. Isso ainda está bem claro quando a colocação de Pelotas no IDESE/2012 (FEE/RS): 317º posição entre os 497 municípios gaúchos. Olhemos agora para Picada Café (5.182 habitantes), jovem município (desmembrado de Nova Petrópolis em 1992), que se encontra no caminho para Gramado. Município com pequenas propriedades de agricultura familiar, mas que tem a presença da indústria e a participação do comércio e dos serviços em sua economia. Saiu de um IDH médio (década de 90) para alto (IDH/2010: 0,758 – IDESE/2012: 0,839). Sendo que sempre manteve-se acima da média do desempenho do Estado no IDH. Pelo IDESE, Picada Café está na 30ª posição dentre todos os municípios gaúchos. Seja no bloco Educação, seja no da Renda ou no da Saúde, a pequenina Picada Café apresenta índices de desenvolvimento humano melhores do que os de Pelotas. Picada Café na região mais desenvolvida do Estado, com pequenos e médios municípios, onde precisamos procurar com determinação para encontrarmos a pobreza. * Segunda parte - publicada hoje (12/06/2015), p. 4 do JG (Jornal de Gramado - Grupo Editorial Sinos)

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