"Há muitos escondidos no deserto, não estranharia se chegassem mais lanchas"

Dois saaráuis chegados em uma lancha nas Ilhas Canárias (Espanha) explicam os motivos de sua viajem


MÓNICA CEBERIO BELAZA - Puerto del Rosario - 09/01/2011
para El País (Madri, Espanha).


Hamad e Abdalá estão escondidos. Na segunda-feira passada, às quatro horas da manhã, saíram da praia das Negritas, ao norte do cais de El Aaiún, rumo a Fuerteventura junto a uns vinte compatriotas saaráuis e uma dezena de marroquinos. No dia seguinte, quando os turistas apenas começavam a sobremesa, sua pequena lancha com 10 metros de comprimento e 40 cavalos de motor atracava em Playa Blanca – muito próximo à capital de Fuerteventura, Porto de Rosário. Os demais foram detidos e conduzidos ao Centro de Internação de Estrangeiros da ilha. Hamad e Abadalá trataram de correr e se esconderam na montanha. Ainda não decidiram se se entregam às autoridades e pedem asilo político como seus companheiros. “Temos medo que nos devolvam ao Marrocos”, disse Hamad, de 27 anos, o mesmo que seu amigo Abdalá. “Não podemos regressar. Saímos porque não havia alternativa. Todos os saaráuis que viemos na barca estávamos no acampamento de Agdaym Izik [que chegou a reunir mais de 20.000 pessoas, convertendo-se no maior protesto em demanda por direitos no Saara desde 1975]. A polícia está nos procurando. Há um com uma ferida de bala em um pé que caminha mal e outro com uma mão fraturada. Somos vítimas da repressão marroquina.”


Hamad fala espanhol. Abdala só árabe, razão pela qual na conversa é necessário um tradutor. Cada um pagou 600 euros para viajar à Espanha. Abdala passou toda sua vida em El Aaiún na casa da família de Hamad. Nenhum dos dois pode voltar ali depois do violento desalojamento do acampamento pelas autoridades marroquinas em 8 de novembro passado. “A polícia entra nas casas dando uma patada na porta. Levam as pessoas à cadeia e ali te podem fazer qualquer coisa. Já aprisionaram a mais de 300, e em muito más condições. Há muitos escondidos que não podem voltar a El Aaiún e que querem sair dali de qualquer jeito. Nem sequer suas famílias sabem onde estão. A situação atualmente é dramática. Não estranharia se chegassem mais lanchas”.
Os dois haviam participado ativamente no acampamento. Abdala fazia trabalhos de manutenção e limpeza. Hamad integrava parte da equipe “de ordem pública”. “Éramos os que controlávamos a todos os que entravam e saiam dali, e fazíamos as checagens, como a polícia e a aduana, explica. Com a entrada dos militares marroquinos, fugiram juntos pelo deserto com outros dois amigos e se esconderam em uma tenda [jaima] em Edchera durante quase dois meses, tomando leite de cabra e o que achavam por ali.


“Um jovem conhecido de meus amigos passou por ali para oferecer-nos viajar para a Espanha”, conta Hamad. “O primeiro dia que tentamos descer à praia nos encontramos com uma equipe da polícia e demos de volta, mas após algumas tentativas conseguimos chegar. Ali nos juntamos com os demais e subimos na lancha. A viajem foi bastante tranqüila”, refere. Os demais eram uns vinte saaráuis e entre oito e 10 marroquinos, segundo seu relato. A polícia assegura que todos os que viajavam na lancha e foram detidos, 22 adultos e seis menores, disseram ser do Saara.


Tanto Hamad como Abdala sustentam que estão na Espanha porque o Marrocos não lhes deu alternativa. Só concedem a sair de costas na foto e pedem que não apareçam seus nomes verdadeiros porque temem represálias a seus familiares por parte das forças da ordem marroquinas. “Não queremos de nenhuma forma pô-los em perigo”, disse Hamad. “Na verdade nem sequer queríamos sair de nossa terra. Queremos um Saara livre e lutar por ele, mas o Marrocos não vai nos deixar em paz. Em vez de direitos, só nos dá pauladas. Querem terminar com os saaráuis e que tenhamos tanto medo que não se volte a montar outro acampamento como esse”, refere.


Hamad tem um irmão que vive em Lanzarote. Chegou em 2006 com a anterior onda de lanchas do Saara após a represão que segiu à intifada de 2005, e foi aos poucos conseguindo o estatuto de refugiado político. Quase todas as petições, umas 200, tiveram o trâmite admitido, mas foram muito poucos os casos em que efetivamente se concedeu o asilo. Um dos irmãos de Abadalá também vive na Espanha, em Bilbao, e o jovem confia poder encontrar-se com ele em algum momento. Não tem claro ainda se procurarão à polícia par pedir asilo. “Temos que pensar bem, porque realmente temos medo de voltar ao Marrocos”, conclui.



Fonte: Elpaís.com – 09.janeiro.2011. Tradução livre: Julio Dorneles.

Comentários

Postagens mais visitadas